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domingo, 29 de maio de 2011

A pintora - Adélia Prado

Hoje de tarde

pus uma cadeira no sol pra chupar tangerinas

e comecei a chorar,

até me lembrar de que podia

falar sem mediação com o próprio Deus

daquela coisa vermelho-sangue, roxo-frio, cinza.

Me agarrei aos seus pés:

Vós sabeis, Vós sabeis,

só Vós sabeis, só Vós.

O bagaço da laranja, suas sementes

me olhavam da casca em concha

na mão seca.

Não queria palavras pra rezar,

bastava-me ser um quadro

bem na frente de Deus

para Ele olhar.


Adélia Prado


Imagem - Henri Matisse



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