terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Coleção Passaporte


Para onde os grandes fotógrafos dirigem o foco em suas viagens particulares?
A resposta está na coleção que começa com imagens inéditas de Beatriz Pontes, Bob Wolfenson, Christian Maldonado, Cristiano Mascaro, Marcelo Greco e Pedro Martinelli, por suas andanças pelo mundo.
São 250 exemplares de cada, numerados e assinados pelos autores.
Pedro Martinelli na Patagônia revela:
"Passa ano, entra ano o campo está lá, imutável. Vadear pelos rios de águas cristalina pescando trutas é um conforto para a alma. "

A Editora Schoeler atende aos pedidos feitos pelo link abaixo:

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009



podem ficar com a realidade

podem ficar com a realidade
esse baixo astral
em que tudo entra pelo cano

eu quero viver de verdade
eu fico com o cinema americano

Paulo Leminski



Inglourious Basterds - Filme de Quentin Tarantino

Mélanie Laurent - atriz de Inglourious Basterds

domingo, 6 de dezembro de 2009


"a noite me pinga uma estrela no olho e passa"

Paulo Leminski




Fotografia do filme "Taking Woodstock" do diretor Ang Lee

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Museu da Cadeira: Arte e design



Recentemente pude conhecer o “Espaço Cultural Maurice Valansi”.
Situado num belo casarão numa rua calma em Botafogo (Rua Martins Ferreira, 48), fui fisgada de imediato pela concepção do espaço.

Ali funciona um lindo e bem decorado bar, uma creperia, sushi bar e cercado de varandas, na frente e ao lado do casarão. Recebe toda semana músicos que tocam desde o jazz a bossa nova, sem falar na poesia que tem lugar cativo. Um lugar de vanguarda e eclético na sua proposta.
Mas o melhor ainda estava por vir. Nos fundos do casarão funciona um incrível e original Museu da Cadeira.
Fui conduzida gentilmente pelo próprio idealizador e dono do espaço, o arquiteto francês Richard Valansi, que expõe sua coleção de cadeiras que nos transportam a um mundo de surpresas e boas histórias.
As cadeiras têm “personalidade”. Umas com griffe, outras que representam costumes e materiais que marcaram uma época. Nos levam a fazer uma viagem no túnel do tempo.
Entre os diversos planos do arquiteto estão a transformação do andar térreo em uma galeria para exposição de trabalhos acadêmicos ou conceituais de design e arquitetura, a ampliação da área do museu, que atualmente comporta apenas metade do acervo, a abertura de um cinema com o objetivo de exibir filmes de arte – curtas, independentes.
Apoiamos a iniciativa e recomendamos o espaço estrelado que encontramos ali aos leitores do blog.
Agradecemos a Nena e Richard Valansi por terem disponibilizado gentilmente as fotografias das íncríveis cadeiras do seu acervo ao Blog.






Fotografias -
1) Interior do Museu
2) "Low Chair Plastic pela Kartell perfil
3) HOW HIGHT THE MOON - Shiro Kuramata
4) BOOM RANG - P. Starck
5) DONNA


quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Augusto Nunes entrevista Pedro Martinelli

O talento de Pedro Martinelli transborda nas suas fotografias magistrais, e deságuam em definitivo em momentos inesquecíveis do Brasil e do mundo, capturadas por suas lentes.

Seus registros fotográficos navegam pelo rumo dos rios, da população ribeirinha, dos caboclos, dos índios, do trabalhador comum, e o dedo que dispara o click está o tempo todo colado ao coração.

Pedro não consegue ficar no patamar do deslumbramento estético de uma paisagem, porque o coração salta e aí as fotos revelam mais que cor, enquadramento perfeito, harmonia. Vira um arco-íris de emoção.
Muitas vezes me peguei com um nó no peito pelo impacto sentido ao ver uma fotografia sua. Tantas, que não saberia escolher neste rico universo que ele nos oferece.
Pedro consegue ir ainda mais longe, por rios desconhecidos, lugares esquecidos e histórias guardadas que ele traz a tona. E elas tomam uma dimensão singular, crescem e aparecem para nós em forma de fotografia. Ele resgata e entrega de bandeja aos leitores. A comida, os hábitos, a cultura, os costumes dos índios e povos da Amazônia em registros etnográficos de um antropólogo que nunca se sentou na cadeira como acadêmico. Sentou-se nos bancos simples de madeira, nas redes, nos barcos, no calor acachapante do verão amazônico.
Os sentidos que regem Pedro, além do peito gigante e generoso é o olfato e paladar. Cheiro do mato, cheiro de comida honesta feita com amor e zelo, que ele detecta de longe: e vira fotografia. As mais lindas e comoventes na sua simplicidade. Pedro tem muito a contar das suas andanças pelo mundo, uma fonte inesgotável e diversa.
Seu belíssimo Blog desde fevereiro tem cumprido este papel, onde ele divide conosco casos saborosíssimos, relatos marcantes da história do Brasil, do mundo, por onde andou. E ainda por cima escreve bem o danado e muito bem!
Aproveito a oportunidade da entrevista que ele concedeu ao amigo de longa data, Augusto Nunes da Revista Veja, e reproduzo aqui.

Temos muito que aprender com Pedro, sua vivência profunda na Amazônia, suas idéias contundentes e projetos futuros.
Pedro me honra com sua amizade, seu carinho. Pedro, Pedrão! Quanta honra!
Ana Paula Bousquet











Ponto de vista: ainda a Praça Nossa Senhora da Paz


A Praça Nossa Senhora da Paz, "menina dos meus olhos" e de tantos outros, hoje pelas lentes do meu querido e competente dentista, Dr. Marcelo Saladini.
A foto foi feita ontem da janela do seu consultório, cujo mal tempo encobria a estonteante paisagem do Morro dois Irmãos.
Dr. Marcelo foi um anjo da guarda que apareceu na minha vida, me salvando da única e inesquecível dor de dente que tive na vida!
Muito obrigada, pela fotografia e pelo sorriso de volta!

domingo, 22 de novembro de 2009

De camarote: samba, suor e lágrima.










De camarote: samba, suor e lágrima.

Final de primavera com temperatura alta de verão é uma combinação que resulta em praia na certa. Ipanema fica lotada. As vagas para estacionar os carros de quem vêm de longe são insuficientes. Resultado: estacionamento ilegal dos desavisados de plantão que por aqui o choque de ordem funciona.
Todos os domingos assisto de camarote (da minha janela) a remoção dos carros estacionados em cima das calçadas ao redor da Praça. Inúmeras vezes cheguei a avisar alguns motoristas, como hoje quando estava indo fazer minha caminhada. Salvei três da roubada. O fato é que pelas minhas contas seria muito mais interessante que a prefeitura confeccionasse uma placa educativa nestes locais: “PROIBIDO ESTACIONAR – SUJEITO A REBOQUE”.
Daí o leitor diria, mas todos sabem que não devem estacionar ali. Em tese sim, mas na prática o brasileiro, em especial o carioca, imagina que a vigilância não é uma constante, que pode dar um “jeitinho”, enfim, que não irá perder um dia de praia por nada desse mundo! Pior, vai voltar para casa de ônibus ou táxi, perder todo dia de amanhã tentando liberar o carro no depósito da Prefeitura (SEOP – ORDEM PÚBLICA) e ainda pagar uma multa de lascar... Em pleno fim de ano, com tantas despesas para encarar pela frente. Coitados!
De fato lamento e penso no quanto estamos longe da tal “ordem pública” anunciada e desejada. A começar pelo péssimo hábito do carioca dirigir buzinando. Fico impressionada com a falta de educação dos motoristas que só conseguem guiar seus carros na base da buzina. Sofro na pele com isso diariamente. Por morar no primeiro andar no coração de cruzamentos vitais do bairro de Ipanema, posso falar com toda justiça de não estar exagerando nesta afirmação. Por qualquer motivo, qualquer segundo impaciente, intolerante, os motoristas lançam mão de sua arma mais poderosa: a buzina. Neste caso penso que deveria haver uma enorme campanha educativa, placas educativas e bem humoradas para se tentar condicionar o comportamento muitas vezes beirando a selvageria do motorista carioca.
Para não parecer que tudo é só lamento por aqui, fiz essas fotos hoje das folhas amarelas no chão da Praça que inundam meus olhos de alegria. Amo esta Praça, estas árvores, e esta época do ano em que somos premiados com tanta beleza.
Não consigo imaginar esta Praça sendo inteira refeita para abrigar uma garagem subterrânea para aumentar o número de vagas ao bairro. O impacto que isso causará especialmente nas árvores de setenta anos me aperta o peito.
O ar que respiramos aqui ainda é privilegiado por conta das árvores. Os pássaros (Bem-te-vi, Sabiás e tantos outros) que moram e nos embalam com seus lindos cantos são um presente que não tem preço. Luxo dos luxos!
Dia 8 de dezembro teremos uma reunião com os responsáveis da obra e iremos lutar para que a Praça Nossa Senhora da Paz continue a ser linda como é. E que haja uma alternativa que contemple a todos.

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Sonetos a orfeu - Rainer Maria Rilke

A nós, nos cabe andar.
Mas o tempo, os seus passos,
são mínimos pedaços
do que há de ficar.

É perda pura
tudo que é pressa;
só nos interessa
o que sempre dura.

Jovem, não há virtude
na velocidade
e no vôo, aonde for.

Tudo é quietude:
escuro e claridade,
livro e flor.

Rainer Maria Rilke
(1875 - 1926)


Estava me preparando para dormir e organizando meus livros na estante, quando me deparei com o livro "Coisas e Anjos de Rilke" com tradução de Augusto de Campos e não resisti, espantei o sono e o cansaço e resolvi escolher um poema para ler e ilustrar minha noite calma.
O chão amarelo que cobre a calçada da Praça Nossa Senhora da Paz, em frente a minha janela, com suas folhas caídas em sinal do fim da primavera que se anuncia, me encanta os olhos e me enchem de luz, paz e silêncio.
Estava também com saudades da poesia refinada do Rilke.
Boa noite.

sábado, 14 de novembro de 2009

De uma praia no Atlântico - João Cabral de Melo Neto

Se o olhar visse curvo,
como se diz que é o espaço,
olhando a sudoeste
de meu atual terraço,

podia ver além
do zinco ondulado (a água)
tuas praias de coqueiros,
pubescentes, não glabras.

Mas há um outro ver
além do primário (o olho),
porque daqui te vejo
com o ver do corpo todo,

sob a táctil luz morna,
com espessura de sucos,
de um sol onde se está
como dentro de um fruto.

João Cabral de Melo Neto
(1920 - 1999)
In: Museu de tudo




quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Registro do apagão.



O relógio digital na Vieira Souto marcava 22h03min quando de repente a escuridão tomou conta da orla. Chovia. Olhei incrédula o breu que modificou a paisagem. Estava guiando meu carro ao som da JB FM que ficou fora do ar. Testei as outras e da mesma forma.
Imaginei uma pane geral.
Estava indo apanhar minha amiga Ana na Livraria Argumento, depois de assistir uma instigante aula na FGV. O trânsito fluía com certa cautela dos motoristas, conseguindo chegar fácil no Leblon. Nós duas ficamos atônitas sem saber o que fazer. Decidimos abortar nosso programa e encararmos a escada no escuro.
Voltei para casa e ainda tentei estudar no laptop com o restinho de bateria disponível. Meu filho toda hora me interrompia dando notícias do blecaute através da rádio no celular. Lembrei-me do meu radinho de pilha e voei para localizá-lo na estante. Mal pude acreditar quando começamos a escutar a voz de William Wack e Cristiane Pelajo. Estava tentando sintonizar na Rádio CBN e no fim das contas escutamos todo o noticiário do plantão até o retorno da luz. Foi aí que nos demos conta da dimensão do problema, dos estados atingidos e as conseqüências imediatas detectadas pela equipe do jornalismo nas ruas das principais cidades atingidas pela falta de luz. Pensei imediatamente nos meus colegas da pós que saíram da aula e embarcaram no metrô. Imaginei-os presos.
E tantos outros nas ruas, nos trens, nos elevadores e outras situações de risco e angústia.
O que aconteceu nesta noite de terça-feira foi gravíssimo e demonstra o quanto estamos vulneráveis frente a situações como essa.

Queremos explicações que possam esclarecer o que de fato ocorreu. Uma informação sem maquiagem, para que possamos manter a credibilidade nas instituições sob a responsabilidade do governo.
Enquanto isso não acontece, gostaria de destacar o quanto a dupla de jornalistas do Jornal da Globo foram fundamentais para manter um clima de segurança à população que podia estar conectado como eu estava e pela seriedade e credibilidade que eles passam.
Senti-me amparada escutando no meu radinho em meio ao caos na escuridão.

Obs: Prejuízo do apagão: telefone sem fio queimado, fonte do modem idem e dois dias desconectada do mundo virtual. É dose.



domingo, 8 de novembro de 2009

O AMOR ANTIGO - Carlos Drummond de Andrade


O amor antigo vive de si mesmo,
não de cultivo alheio ou de presença.
Nada exige nem pede. Nada espera,
mas do destino vão nega a sentença.

O amor antigo tem raízes fundas,
feitas de sofrimento e de beleza.
Por aquelas mergulha no infinito,
e por estas suplanta a natureza.

Se em toda parte o tempo desmorona
aquilo que foi grande e deslumbrante,
o antigo amor, porém, nunca fenece
e a cada dia surge mais amante.

Mais ardente, mas pobre de esperança.
Mais triste, Não. Ele venceu a dor,
e resplandece no seu canto obscuro,
tanto mais velho quanto mais amor.

Carlos Drummond de Andrade
(1902 - 1987)
In Amar se aprende amando


Imagem - Parede grafitada em Ocean Beach - Califórnia

domingo, 1 de novembro de 2009

PIRATA - Sophia de Mello Breyner Andresen


Sou o único homem a bordo do meu barco.

Os outros são monstros que não falam,

Tigres e ursos que amarrei aos remos,

E o meu desprezo reina sobre o mar.

Gosto de uivar no vento com os mastros

E de me abrir na brisa com as velas,

E há momentos em que são quase esquecimento

Numa doçura imensa de regresso.

A minha pátria é onde o vento passa,

A minha amada é onde as roseiras dão flor,

O meu desejo é o rastro que ficou das aves,

E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919 -2004)

Imagens - Farol de São Tomé - Campos dos Goytacazes


sábado, 31 de outubro de 2009

O som do relógio - Fernando Pessoa


O som do relógio


O som do relógio

Tem a alma por fora,
Só ele é a noite
E a noite se ignora.

Não sei que distância

Vai de som a som
Pegando, no tique,
Do taque do tom.

Mas oiço de noite

A sua presença
Sem ter onde açoite
Meu ser sem ser.

Parece dizer

Sempre a mesma coisa
Como o que se senta
E se não repousa.

Fernando Pessoa
(1888 - 1935)
In: Poesias Inéditas



Fotografia - Helmut Newton

segunda-feira, 26 de outubro de 2009


" As coisas acontecem como uma colisão entre os nossos desejos, as vontades, os planos que fazemos e as intervenções do acaso."

Paul Auster - Paraty 2004



Imagens - Marcel Duchamp

domingo, 25 de outubro de 2009

O AMOR - Nuno Júdice



Deus — talvez esteja aqui,neste
pedaço de mim e de ti, ou naquilo que,
de ti, em mim ficou. Está nos teus
lábios, na tua voz, nos teus olhos,
e talvez ande por entre os teus cabelos,
ou nesses fios abstractos que desfolho,
com os dedos da memória, quando os
evoco.


Existe: é o que sei quando
me lembro de ti. Uma relação pode durar
o que se quiser; será, no entanto, essa
impressão divina que faz a sua permanência? Ou
impõe-se devagar, como as coisas a que o
tempo nos habitua, sem se dar por isso, com
a pressão subtil da vida?


Um deus não precisa do tempo para
existir: nós, sim. E o tempo corre por entre
estas ausências, mete-se no próprio
instante em que estamos juntos, foge
por entre as palavras que trocamos, eu
e tu, para que um e outro as levemos
connosco, e com elas o que somos,
a ânsia efémera dos corpos, o
mais fundo desejo das almas.


Aqui, um deus não vive sozinho,
quando o amor nos junta.Desce dos confins
da eternidade, abandona o mais remoto dos
infinitos, e senta-se aos pés da cama, como
um cão, ouvindo a música da noite. Um
deus só existe enquanto o dia não chega; por
isso adiamos a madrugada, para que não
nos abandone, como se um deus
não pudesse existir para lá do amor, ou
o amor não se pudesse fazer sem um deus.


Nuno Júdice
In: CARTOGRAFIA DAS EMOÇÕES
2001



Pintura - Henri Matisse ( Sleeping Woman)


sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Carta pluma - Paulo Leminski

a uma carta pluma
só se responde com alguma
resposta nenhuma
algo assim como se a onda
não acabasse em espuma
assim algo como se amar
fosse mais do que a bruma

uma coisa assim complexa
como se um dia de chuva
fosse uma sombrinha aberta
como se, ai, como se,
de quantos se
se faz essa história
que se chama eu e você

Paulo Leminski
(1944 - 1989)




Imagem - Instalação no jardim do MCASD La Jolla - (Museu de Arte Contemporanea de San Diego, Califórnia)

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

É urgente o amor - Eugénio de Andrade


É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos,as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura,até doer.

É urgente o amor,
é urgente permanecer.

Eugénio de Andrade
(1923 - 2005)


Fotografia - Ana Paula Bousquet

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Epigrama no 2 - Cecília Meireles

És precária e veloz,
Felicidade.
Custas a vir e, quando vens,
não te demoras.
Foste tu que ensinaste aos homens
que havia tempo,e, para te medir,
se inventaram as horas.
Felicidade,
és coisa estranha e dolorosa:
Fizeste para sempre a vida ficar triste:
Porque um dia se vê que as horas todas passam,
e um tempo despovoado e profundo, persiste.

Cecília Meireles
(1901 - 1964)




Pintura - Michael Borremas

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

O AUTO DO FRADE - João Cabral de Melo Neto

Acordo fora de mim
Como há tempos não fazia.
Acordo claro, de todo,
acordo com toda a vida,
com todos os cinco sentidos
e sobretudo com a vista
que dentro dessa prisão
para mim não existia.
Acordo fora de mim:
como fora nada eu via,
ficava dentro de mim
como vida apodrecida.
Acordar não é dentro,
acordar é ter saída.
Acordar é reacordar-se
ao que nosso redor gira.

João Cabral de Melo Neto

Em 9 de outubro de 1999 encerrou a vida de João Cabral de Melo Neto.
João Cabral construiu uma poesia do rigor, da clareza e da objetividade, com absoluto domínio da técnica.
Difícil de ser digerido pelo senso comum, da sua obra consciente, antilírica e racional.
Como admiradora que sou da sua poesia, ele me inspira e me encanta com sua escrita "cerebral" que me emociona.
E vai estar sempre por aqui sendo homenageado, trazendo seu sentimento através da poesia.

AP

Fotografia tirada na pedra do arpoador, Rio de Janeiro por Ana Paula

Praça do Liceu de Humanidades de Campos







Prédio do Liceu de Humanidades de Campos, situado em frente a "pracinha do coreto".
A praça mais encantadora e charmosa de Campos dos Goytacazes sob o meu ponto de vista.
Fotos - Ana Paula

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Chuvisco



"Um doce conhecido nacionalmente e que deu fama à cidade de Campos, o chuvisco, foi durante muito tempo um dos cartões postais do município, mas ninguém lembra de sua origem. Sabe-se apenas que a sua receita foi passada através de inúmeras gerações de mãe para filha até chegar aos dias de hoje.

O chuvisco, que deu fama ao município, na verdade não foi criado aqui. Ele é um doce da culinária portuguesa, e foi trazido quando a Família Real Portuguesa foi obrigada a deixar aquele país, para refugiar-se no Brasil. Era o doce preferido de D. Pedro I. Mas os detalhes sobre o quotidiano da Família Real Portuguesa, bem como das suas preferências gastronômicas eram mantidos em segredo dentro do palácio, e quase nada vazava para a Côrte.Até que um dia, Mulata Teixeira, uma das doceiras mais famosas de Campos, ganhou a receita de uma pessoa que viera do Rio de Janeiro, e após inúmeras tentativas conseguiu encontrar o ponto do doce que, posteriormente, foi ensinado e passado através das gerações, para outras mulheres da nossa terra."



Orávio de Campos Soares

Foto - Ana Paula

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Voltando as origens...Campos dos Goytacazes/RJ


Fotos do prédio do Fórum de Campos.




Ponte de Ferro, também chamada de "Ponte de Trem".
Construída em 1907 pela Leopoldina unindo os trechos ao norte e sul do Rio Paraíba.


Beira Rio - Ururau da Lapa


Deixei Campos, minha cidade natal, aos 17 anos vindo estudar no Rio de Janeiro e posteriormente morando em Rio Branco/Acre por 21 anos.
É impressionante o pouco que percebemos de investimentos por aquela cidade situada no norte fluminense, com uma topografia invejável e uma beira rio inspiradora.
O que se vê hoje é um vertiginoso crescimento imobiliário e rarefeitas melhorias na infraestrutura e urbanismo.
Uma pena.
Campos merecia mais carinho e atenção por parte das autoridades competentes.
Melhor aproveitamento de suas lindas praças e revitalização da beira rio e centro da cidade.
Para minha memória afetiva e marca indelével do passado, ficaram minha infância passada na casa dos avós, dos primos e amigos que lá deixei. Onde o mais notável era brincar de pique bandeira, amarelinha, comer o bolo de chocolate da Inácia e o robalo assado recheado com farofa da minha avó.
O Colégio Auxiliadora onde pude viver os melhores anos da minha juventude e ter os melhores professores da cidade. Ainda hoje uma referência local.
No mais, uma pena que Campos não tenha recebido o amor e respeito à altura da sua beleza.
Ana Paula Bousquet
Fotos - Ana Paula

domingo, 11 de outubro de 2009

Aprendiz do espanto - Thiago de Mello


Não deflorei ninguém.
A primeira mulher que eu vi desnuda
(ela era adulta de alma e de cabelos)
foi a primeira a me mostrar os astros,
mas não fui o primeiro a quem mostrou.
Eu vi o resplendor de suas nádegas de costas para mim,
era morena, mas quando se virou ficou dourada.

Sorriu porque os seus peitos me assombraram
o olhar de adolescente desafeito
à glória da beleza corporal.
Era manhã na mata, mas estrelas
nasciam dos seus braços e subiam
pelo pescoço, eu lembro,era o pescoço
que me ensinava a soletrar segredos
guardados na clavícula.
Pedia já estirada de bruços me chamando,
que eu passeasse meus lábios pelas pétalas
orvalhadas da nuca,eram lilazes,
com as gemas de leve eu alisasse
as espáduas de espumas e esmeraldas,
queria a minha mão lhe percorrendo,
mas indo e vindo, o vale da coluna,
cuidadosa de mim, trés doucement.

Ela me inaugurou o contentamento
inefável de dar felicidade.
Tanto conhecimento só podia
ser de nascença, hoje eu calculo.
Não era um saber de experiências feito,
mas quanta ciência para transmiti-lo.
Ela era de outras águas, a fontana
de trinta anos, que veio lá do Sena
com a sina de me dar a beber
na aurora dos seus olhos,nos seus peitos,
na boca musical, no mar do ventre,
no riso de açucena,na voz densa,
nas sobrancelhas e no vão das pernas -
o mel antigo da sabedoria
de que a libido cresce quando atende,
de que a tesão se acende na ternura,
que as ante-salas se prolonguem vastas
até estar pronto para entrar no céu.


Thiago de Mello


Ilustração - Beatriz Milhazes


quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Amor Feinho - Adélia Prado


Eu quero amor feinho.
Amor feinho não olha um pro outro.
Uma vez encontrado,
é igual fé,não teologa mais.

Duro de forte,
o amor feinho é magro,
doido por sexo
e filhos tem os quantos haja.

Tudo que não fala, faz.
Planta beijo de três cores ao redor da casa
e saudade roxa e branca,
da comum e da dobrada.

Amor feinho é bom porque não fica velho.
Cuida do essencial;
o que brilha nos olhos é o que é:
eu sou homem você é mulher.

Amor feinho não tem ilusão,
o que ele tem
é esperança:
eu quero amor feinho.

Adélia Prado

Fotografia - Henri Cartier Bresson

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

A boca - Eugénio de Andrade


A boca,


onde o fogo
de um verão
muito antigo

cintila,

a boca espera

(que pode uma boca esperar senão outra boca?)

espera o ardor
do vento
para ser ave,

e cantar.

Eugénio de Andrade
(1923 - 2005)


Fotografia - Richard Avedon

sábado, 3 de outubro de 2009

Música, levai-me: Eugénio de Andrade

Música, levai-me:
Onde estão as barcas?
Onde são as ilhas?


Eugénio de Andrade
(1923 - 2005)


Fotografia: Pierre Verger

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Oh yeah! Rio 2016!!


Comitê organizador Rio 2016


EMOCIONANTE!!



Fotos: google

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Chefs...Ah esses Chefs...!




O que faz com que uma noite de quarta-feira chuvosa e fria se torne memorável? Respondo: Um jantar Franco Brasileiro a "Seis Mãos", no ano da França no Brasil. Lily Marinho e o Cônsul da França que estavam lá que o digam.
Provei e aprovei! Delícia!
Sincronia perfeita, quase um balé na harmonia do vinho e nas propostas do menu. Gostaria de registrar que o sucesso na elaboração de pratos como esses oferecidos nesta noite pelos Chefs citados se dá pelo apreço que eles trazem pelos nossos ingredientes simples tais como chuchu, jambu, tapioca, açaí e tantos outros, elevando-os ao patamar da alta gastronomia.
Como diria minha amiga Ilana Fecury: supimpa !
A língua aprova a doce e inusitada mistura de "rocambole de salmão com caviar de açaí", ajoelha e reza por "misto quente de trufas e chuteney de goiabada cascão com foie gras". Regado a Bourgogne Leroy Montagny, senta e chora, porque aí a vida fica bela, leve e tudo é azul no mais perfeito vinho da noite.
Pois, pois, Antônio e Hugo, pai e filho, vindos do Porto, anfitrião e somelier, a platéia aplaude e agradece. A inciativa da ZAHIL com a "Casa Cor" ofereceu um momento de criatividade, "misturando genialidade e sabedoria", como proposto no convite.
A língua é nossa pátria e aprova a doce mistura que os grandes e talentosos Chefs prepararam .
Aos estrelados e simpáticos Chefs Roberta Sudbrack, Roland Villard, Claude Troisgros, parabéns!
Nesse mix cultural gastronômico o que fica é "Aquela Saudade" de momentos como esse!

Merci, Obrigada, Valeu!
De AP to A

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Questão de Pontuação - João Cabral de Melo Neto

Todo mundo aceita que ao homem
cabe pontuar a própria vida:
que viva em ponto de exclamação
(dizem: tem alma dionisíaca);

viva em ponto de interrogação
(foi filosofia, ora é poesia);
viva equilibrando-se entre vírgulas
e sem pontuação (na política):

o homem só não aceita do homem
que use a só pontuação fatal:
que use, na frase que ele vive
o inevitável ponto final.

João Cabral de Melo Neto
(1920 - 1999)

Fotografia - Elliott Erwitt (1 )

Fotografia - Chris Marker (2)

domingo, 27 de setembro de 2009

Domingo com Marina Silva

Sol de primavera na orla carioca.
Às 11hs da manhã saiu do final do Leblon em direção ao Leme, a passeata capitaneada por Marina Silva, Fernando Gabeira, Alfredo Sirkis, outras autoridades e população local em defesa do clima mundial (Brasil no Clima).
Número imenso de fotógrafos, TV de todas as emissoras, Marina mal conseguia andar.
Foi recebida com aplausos, coro enfatizando sua candidatura.
Marina entra em cena num dia glorioso de sol para se firmar como forte candidata a presidente!
Com uma biografia digna de aplauso e reconhecimento, construída com credibilidade e luta por idéias que buscam conciliar desenvolvimento e preservação.
Fui até lá dar meu beijo e fazer essas fotos para meu amigo Moisés Alencastro, jornalista do Jornal Página 20 em Rio Branco/Acre.
Salve, Marina!






Manoel de Barros


"Retrato quase apagado em que se pode ver perfeitamente nada "

I

Não tenho bens de acontecimentos.
O que não sei fazer desconto nas palavras.
Entesouro frases, por exemplo:
- Imagens são palavras que nos faltaram.
- Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem.
- Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser.
Ai frases de pensar!
Pensar é uma pedreira. Estou sendo.
Me acho em petição de lata (frase encontrada no lixo).
Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos,
retratos.
Outras de palavras.
Poetas e tontos se compõem com palavras.

II

Todos os caminhos – nenhum caminho
Muitos caminhos – nenhum caminho
Nenhum caminho – a maldição dos poetas.

Manoel de Barros
In: O GUARDADOR DE ÁGUAS



Fotografia - Ana Paula Bousquet (manhã de 26/09/09)

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Analivia Cordeiro e "Coreografismos"

Analivia Cordeiro é bailarina, coreógrafa, videomaker, arquiteta, pesquisadora corporal, pioneira mundial em "computer-dancer" e da vídeo-arte no Brasil. Ufa! Haja fôlego. E ainda encontra tempo para as amigas. Doce, leve, altíssimo astral, somos contagiadas quando estamos juntas.
Mora em São Paulo, e está cada vez mais assumindo o espírito do carioca, onde possui outra casa e vem reabastecer as energias na brisa do mar. Estamos sempre juntas, três Anas: Paula, Luíza e Analivia. Rindo, trocando, aprendendo.
Hoje no nosso almoço, compartilhamos com o sucesso de uma matéria exibida no Globo News (Ciência e Tecnologia) feita com ela que se chama "Coreografismos", que mistura dança e tecnologia. O trabalho de Analivia é originalíssimo. Muito bonito. E vale a pena dar uma olhada no vídeo da reportagem pela Globo News que linkarei aqui.

http://especiais.globonews.globo.com/cienciaetecnologia/


Reproduzo o depoimento de Analivia dado a Globo News em 21/09/09:

“Comecei a dançar criança, e sempre olhei o movimento do corpo do ponto de vista matemático e expressivo, ao mesmo tempo. Meu primeiro trabalho foi em video (1973), quando era adolescente. Decidi fazer um software para planejar a relação entre as cameras de TV e o movimentos dos bailarinos, já que não existia nada disponível no mercado. Não existiam, na época, nem monitores (tela de computador), por isso o plotter desenhou bonequinhos que os bailarinos dançaram. Resultado: o M3×3 Segui pesquisando a relação da dança com o espaço . Veja só estes lindos desenhos do movimento do corpo no espaço tridimensional, em Nota-Anna - uma notação que criei com Nilton Lobo de 1983 a 1993. Quando observei o resultado de anos usando a tecnologia (o computador, principalmente) no meu corpo e no de meus colegas, percebi que era momento de cuidar da saúde. Dores de tantas horas no computador. Pesquisei e estudei durante anos, e fiz um site - resultado de uma tese de doutorado em 2004 - de práticas criativas para fazer o corpo saudável e feliz, uma parceria arte-ciência, sem dúvida. (Acesse o youtube e faça uma procura pela palavra analiviaplurabelle). Se você quiser conhecer melhor o meu trabalho, acesse o site. “

(Analivia Cordeiro)

Analivia,

Por aqui te deixo meu beijo, meu carinho e minha admiração!
Até, Inté...

Ana Paula

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Anotações sobre a poesia - Antônio Torres

Anotações sobre a poesia

Antônio Torres


(Texto de introdução às oficinas literárias – de poesia, crônica e conto - realizadas na Casa do Saber do Rio de Janeiro, às sextas-feiras, de 18/9 a 23/10).


O que é poesia? “A arte de compor ou escrever versos”, assim a definem invariavelmente todos os dicionários brasileiros da língua portuguesa. Mestre Houaiss acrescentou: “Composição em versos (livres e/ou providos de rima) cujo conteúdo apresenta uma visão emocional e/ou conceitual na abordagem de idéias, estados de alma, sentimentos, impressões subjetivas etc., quase sempre expressos por associações imagéticas”.

Isto diz tudo?

Parece que não, a julgar pela extensão do verbete do célebre filólogo, que prossegue: “Composição poética de pequena extensão”. Comentário: o que dizer então de “A Odisséia”, “A Ilíada” e “Os Lusíadas”, sendo este o poema que inaugurou o nosso idioma? Ou do “The waste land”, de T. S. Eliot? Logo, nem toda poesia é uma composição de pequena extensão. Há exceções monumentais, como é o caso de “A Divina Comédia”, de Dante. Longos poemas também são “Cobra Norato”, do brasileiro Raul Bopp, e “Uivo”, do beatnick Allen Grinsberg, por exemplo. Mas vamos em frente: “Arte dos versos característica de um poeta, de um povo, de uma época”. Nada a comentar. Continuemos: “Arte de excitar a alma com uma visão do mundo por meio das melhores palavras em sua melhor ordem.” Excitar a alma? Recorramos ao próprio Houaiss: “Excitar = provocar ou ter uma reação (física ou psicológica)”. No que se inclui, naturalmente, o desejo sexual, que faz a alma cantar. E passemos a outras variações sobre o mesmo tema: “Poder criativo, inspiração; o que desperta o sentimento do belo; aquilo que há de elevado ou comovente nas pessoas ou nas coisas”.

Bem, já não se fazem musas inspiradoras como antigamente. E assim a inspiração parou no tempo, envolta nas brumas do romantismo, banida da modernidade juntamente com o elevado ou comovente sentimento do belo. Hoje, negam-se poderes mágicos ao fazer poético, que em princípio requereria apenas o amalgamento destes elementos básicos: talento criador e rigor no trato com as palavras, levando-se em conta que a expressão poética tem um quê e um como, ou seja, o quê vai ser dito e a forma como se o dirá. O sortilégio que se estabelece entre conteúdo e forma pode ser entendido como o equilíbrio que deve ser buscado entre emoção e razão. E aqui já não estamos mais consultando um dicionário, mas lendo T. S. Eliot, o poeta e ensaísta que tanto influenciou a poesia do século 20: “O poema é um organismo dotado de vida própria, e é o seu significado, a sua organização de materiais utilizados, as relações existentes entre suas partes e cada uma delas e a sua estrutura global, que é necessário estudar”.

Do seu livro “A essência da poesia” destacamos também o seguinte:

“Não acredito que a tarefa do poeta seja, primordialmente e sempre, levar a efeito uma revolução da linguagem. Não seria desejável, ainda que fosse possível, viver em estado de perpétua revolução – a ânsia pela novidade contínua na dicção e na métrica é tão doentia quanto a adesão obstinada à linguagem dos nossos avós. Há épocas para exploração e épocas para o desenvolvimento do território conquistado”. Eis aí um recado para os que parecem se sentir obrigados a reinventar a poesia a cada verso que escrevem.

De anotação em anotação, retroagiremos à “Arte poética” de Aristóteles, presumivelmente escrita entre os anos de 338 a 336 antes de Cristo. Para ele, a poesia é uma imitação pela voz e distingue-se assim das artes plásticas que imitam pela forma e pela cor. A partir desta definição, Aristóteles estabelece diferentes formas poéticas, desde a dança que imita apenas pelo ritmo, até a poesia lírica, a tragédia e a comédia, que imitam pelo ritmo, pela linguagem e pela melopéia. As formas intermediárias seriam as imitações em prosa, as elegias, a poesia épica, a música vocal. E conceitua a arte poética como “uma disposição suscetível de criação acompanhada de razão verdadeira”, quer dizer, ele já estava falando da necessidade de equilíbrio entre emoção e razão. E acreditem: em seu tempo também já se discutia as características do belo. Aristóteles tendia a defender os elementos racionais mais do que os sensoriais. Logo, na arte poética o conflito razão-emoção é bem antigo. E, segundo Aristóteles, o belo reside na grandeza da ordem. Suas formas são a unidade ou coordenação – a proporção ou simetria -, a determinação ou precisão.

Na minha busca insaciável de entendimento da matéria aqui apresentada, esbarro em duas linhas do francês Michel Leiris que, na introdução ao livro de Jean-Paul Sartre sobre Charles Baudelaire, define a poesia como “veículo de uma mensagem”, e, que, portanto, é preciso “referir com clareza qual é o mais amplo conteúdo humano desta mensagem”. Bem, tal análise foi perpetrada no tempo do existencialismo, que se pretendia um novo humanismo.

Mas cesse tudo que a antiga musa canta, pois agora passaremos a palavra a Octavio Paz, o poeta e ensaísta mexicano que ocupou um singularíssimo lugar na literatura latino-americana do século 20. Destaquemos de “A consagração do instante”, terceiro capítulo do seu livro “Signos em rotação”, os seguintes ensinamentos:

1. “O que caracteriza o poema é a sua necessária dependência da palavra tanto como sua luta por transcendê-la. Esta circunstância permite uma indagação sobre sua natureza como algo único e irredutível, e, simultaneamente, considerá-lo como uma expressão social inseparável de outras manifestações históricas. O poema, ser de palavras, vai mais além das palavras e a história não esgota o sentido do poema; mas o poema não teria sentido – e nem sequer existência – sem a história, sem a comunidade que o alimenta e à qual alimenta”.

2. “A poesia não se sente: diz-se. Ou melhor: a maneira própria de sentir a poesia é dizê-la. [...] O poeta fala das coisas que são suas e de seu mundo, mesmo quando nos fala de outros mundos: as imagens noturnas são compostas de fragmentos das diurnas, recriadas conforme outra lei. O poeta não escapa à história, inclusive quando a nega ou a ignora. Suas experiências mais secretas ou pessoais se transformam em palavras sociais, históricas. Ao mesmo tempo, e com essas mesmas palavras, o poeta diz outra coisa: revela o homem. Essa revelação é o significado último de todo poema e quase nunca é dita de modo explícito, mas é o fundamento de todo o dizer poético”.

3. “A experiência poética não é outra coisa que a revelação da condição humana, isto é, desse transcender-se sem cessar no qual reside precisamente a sua liberdade essencial. Se a liberdade é movimento do ser, transcender-se contínuo do homem, esse movimento deverá estar referido sempre a algo. E assim é: um apontar para um valor ou uma experiência determinada. A poesia não escapa a essa lei, como manifestação da temporalidade que é. Com efeito, o característico da operação poética é o dizer, e todo dizer é dizer de algo. E que pode ser esse algo? Em primeiro lugar esse algo é histórico e datado: aquilo de que o poeta fala efetivamente, sejam os seus amores com Galatéia, o sítio de Tróia, a morte de Hamlet, o sabor do vinho numa tarde, ou a cor de uma nuvem sobre o mar. O poeta consagra sempre uma experiência histórica, que pode ser pessoal, social ou ambas as coisas ao mesmo tempo”.

Um breve histórico

No princípio, a poesia tinha um caráter social. Associada aos cantos religiosos e ao entretenimento, servia para animar efemérides públicas e privadas, incluindo-se nisso as saudações a personalidades, e as loas aos grandes feitos militares, nas guerras de conquistas. Era usada também para a cura de doenças. Esse uso chegou até ao sertão baiano em que nasci. Ali, sempre que havia alguém doente, chamava-se uma rezadeira, ou benzedeira, que, pela urgência do chamado, chegava toda esbaforida. Com três galhos de arruda numa das mãos, ela os movimentava na cara do enfermo, fazendo o sinal da cruz, enquanto recitava:

Com dois te botaram
Com três eu te tiro
Com perna de grilo
Que vem do retiro

É de metetéia
É de manenanha
Que esse menino fique bom
De hoje para amanhã!

Pouco importava se a própria rezadeira não soubesse os significados de metetéia e manenanha, palavras que sequer foram dicionarizadas pelos mestres Aurélio Buarque de Holanda e Antonio Houaiss. O importante era o poder daquele poema – e de sua fé nele, claro, assim como a do doente -, para tirar mau-olhado, o motivo de todas as doenças do mundo, ela acreditava nisso. E o comprovava mostrando os galhos de arruda que murchavam completamente, durante sua reza, por haver captado todo o mal incrustado no corpo enfermo.

Também se recorria às tradições daquele mundo para espantar o medo da noite. Ao pé do fogão, e à luz do seu fogo, enquanto as panelas fumegavam, cantavam-se as histórias que passavam, oralmente, de geração a geração. Refiro-me às da literatura de cordel, assim definida por um de seus autores mais populares, o Rodolfo Coelho Cavalcante:

Cordel quer dizer barbante
Ou senão mesmo cordão,
Mas cordel-literatura
É a real expressão
Como fonte de cultura
Ou melhor, poesia pura,
Dos poetas do sertão


A expressão cordel vem da forma como os folhetos dessa literatura eram pendurados nas feiras, para serem vendidos. Pelos sertões adentro, o povo os chamava de ABC e de “rimance”, por se tratar de narrativas rimadas.

De origem ibérica, rica em fabulação, a literatura de cordel é até hoje muito popular no Nordeste brasileiro e até mesmo em certos núcleos urbanos do Sudeste, em função dos fluxos migratórios. E produziu clássicos como “A história do pavão misterioso”, “A chegada de Lampião ao inferno” e “Proezas de João Grilo”. Este se tornaria a matriz do grande sucesso de Ariano Suassuna, “O auto da compadecida”:

João Grilo foi um cristão
Que nasceu antes do dia
Criou-se sem formosura
Mas tinha sabedoria
E morreu depois das horas
Pelas artes que fazia

O já citado Rodolfo Coelho Cavalcante explica à perfeição o fazer poético cordelista e o seu alcance:

De tudo que acontecia
No país ia escrevendo
Padre Cícero, Lampião,
Ia o povo todo lendo.
Criou hábito no povo
De ler um folheto novo
Para a notícia ir sabendo.


E ele nos ensina mais:

O chamado trovador
Ou poeta popular
Era semi-analfabeto
Porém sabia rimar,
Seus folhetos escrevia
E os sertanejos os liam
Por ser o seu linguajar.


Não foram poucos os poetas eruditos que buscaram inspiração nessa fonte popular. Um exemplo disso é o poema “Cantadores do Nordeste”, de Manuel Bandeira, que está em seu livro “Estrela da Tarde”. E João Cabral de Melo Neto não poucas vezes se utilizou da estrutura, métrica e ritmo do cordel. Basta lembrar o seu famoso auto de Natal “Morte e vida Severina”:

O meu nome é Severino
Não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
Que é santo de romaria,
Deram então de me chamar
Severino de Maria;
Como há muitos Severinos
Com mães chamadas Maria
Fiquei sendo o da Maria
Do finado Zacarias.


E por aí vai.

E se temos por aqui os nossos heróis populares – João Grilo, Lampião, Antônio Conselheiro, Cancão de Fogo, Lucas da Feira – o bandoleiro negro de Feira de Santana, um lendário justiceiro que roubava dos ricos para dar aos pobres, espécie de versão baiana de Robin Hood, e etc., pois a galeria desses personagens é imensa -, o México tem La Cucaracha, cantada em todo o mundo, e a Argentina o Martim Fierro, que se tornou símbolo da valentia platina, cuja lenda levou Jorge Luís Borges a escrever um conto magistral, chamado “O fim”, que releio sempre, com um renovado encanto.

Por fim, mas não por último, fiquemos com o poeta português Alexandre O’Neill, o que dizia:

Folha de terra ou papel,
Tudo é viver, escrever.



Hoje ao acordar recebo um e-mail do meu querido-amigo, escritor, romancista, poeta e ser humano especial, Antônio Torres.
Com o dom da palavra escrita e da oralidade, quando o ouvimos narrar sobre temas como poesia, romance, crônica, conto e "causos", nos deixamos levar por aquele universo rico e profundo que nos oferece, inebriados!
Tive esta oportunidade e a partir de então construímos um caminho de respeito, carinho e admiração mútua.

Acima de tudo porque Antônio tem uma qualidade rara dos que ocupam uma posição de destaque como a dele: generosidade. A ponto de ofertar estes belíssimos textos para que eu publicasse em meu Blog.
Me sinto muito honrada. E confesso que me faltam palavras para expressar o carinho e gratidão por ele.
Aos leitores do Blog um presente do Mestre Antônio Torres com carinho!

Ana Paula.

Obs: Os grifos são de autoria do Antônio, conforme recebi!

SAUDADE por ANTÔNIO TORRES

Saudade*

Esta pequena dor à portuguesa
tão mansa quase vegetal
Alexandre O’Neill

Para isso fomos feitos.
Por isso temos longos braços para os adeuses.
Vinicius de Moraes



Antônio Torres


Eis o meu inescapável destino: ser ambígua por natureza. Trago no coração alegria e martírio, de que decorre uma tristeza que rima com beleza, a enovelar um sentimento mais ou menos melancólico de incompletude, ligado pela memória a situações bem vividas. Em outras palavras: privação da presença de alguém ou de algo que muito se quer, ou a ausência de certas experiências e prazeres do passado, que se deseja reviver. Saudade assim até que não é ruim, eu tiro isso por mim, cantava o saudoso Luiz Gonzaga, o rei do baião, numa música popular que também dizia que saudade faz doer, amarga que nem jiló. Pode me chamar de uma faca de dois legumes, que corta na alma, ui!

Modéstias à parte, sou uma palavra para muita prosa e verso, ponteio de viola, conversa mole, papo perfunctório (perdão, leitores), devaneio, pieguice, riso e lágrima. E é aí que mora o perigo. O de ser a musa inspiradora dos suspiros e ais das mais compungidas almas deste mundo: Saudade, palavra triste, quando se perde um grande amor... Daí um célebre vate dantanho haver me definido como a presença da ausência. Outro, de gosto mais duvidoso, cravou-me um espinho cheirando a flor. E tome metáfora enternecedora servida em frasco de xarope e frases lapidares como as tumbas: Punge-me agora trágica saudade...

(Com a palavra um professor, saudoso das aulas de civismo, que incluíam a cantoria de hinos patrióticos e a declamação de poemas tão inolvidáveis quanto os boleros que ele gostava de dançar).

O professor pigarreia, para desembargar a sua emocionada voz. E ensina: “Quem poderá aprofundar melhor do que qualquer outra pessoa as singularidades poéticas que se enrodilham na essencialidade dos sentimentos humanos e suas expressões vocabulares, se não um poeta? E não precisa ser dos maiores. Basta que seja poeta”. Os meninos: “Ai que saudades que eu tenho, da aurora da minha vida, da minha infância querida, que os anos não trazem mais”. Vossos aplausos, por favor.

Ora dizem que sou intraduzível. Ora, que estou entre as dez palavras da língua portuguesa de mais difícil tradução. Ambiguidade é isso aí: altamente valorizada para consumo interno, não possuo valor de troca no mercadão universal das Letras. Tirando-se nuestros hermanos de habla hispânica, que têm lá a saudosinha Soledad, os demais tradutores devem me achar uma encrenca, uma pedra na língua deles. Mas quer saber mesmo? Meto-me em sapatos altos, vaidosíssima, toda vez que ouço essa história de que sou uma autêntica filha da última flor do Lácio, significando isto que tenho o latim no meu DNA. Descendo de Solitas e Sólus, quer dizer, de uma família chamada Solidão. É preciso dizer mais?

Mas digo: vindo há muito do tempo, não posso afirmar com exatidão em que dia, hora, mês e ano nasci, e se foi já no século VII, quando surgiu um conjunto dialetal galego-português no noroeste da Península Ibérica, ou mais tarde, quando os portugueses investiram contra os árabes, para a reconquista de suas terras dominadas por eles, e com isso o idioma alastrou-se pelo sul, lá pelas bandas dos Algarves, separando-se do galego e tornando-se o veículo de expressão de um novo reino; ou se foi quando o português se consolidou como língua literária, entre os séculos XV e XVI, cujo coroamento viria a acontecer com a publicação de Os Lusíadas, em 1572. Antes disso ele, o português, já havia feito muita travessia pelos mares, na voz dos intrépidos marinheiros que atingiram o Cabo Bojador em 1434, chegaram à foz do Congo em 1483, dobraram o Cabo da Boa Esperança em 1487, e deram com seus costados no Brasil em 1500. Eu fiquei em terra e me fiz ao mar ao mesmo tempo, a recitar: Cantando [me] espalharei por toda a parte, se a tanto me ajudar o engenho e a arte. Em terra, com os olhos cansados de olhar para o além, cantava La barca, um bolero que ainda ia ser inventado, séculos adiante, enquanto outra parte de mim seguia as pegadas em Ceuta do soldado Luís de Camões, e nos quinze anos mais em que ele se meteu em guerras na Índia, tendo sido ele próprio um herói da epopéia que escreveu. No regresso, pegou o mote Se me levam águas, nos olhos as levo, e disso saiu um poema que começa assim: Se de saudade morrerei ou não, meus olhos dirão... E nessas suas linhas, que podem me servir se não de certidão de nascimento, mas de batismo, ele via no espelho das águas a minha condição ambígua: Todas são salgadas, porém as choradas, doces me parecem. Enfim, se eram do mar, da saudade seriam. Navegar era preciso.

Eu nasci para marinheiro,
Mas pus os óculos e fiquei em terra.
Alexandre O’Neill

A esta altura parece claro que minha biografia começa mesmo é no tempo das grandes navegações. Quanta aventura, tanta desventura, conquistas e espantos, cobiça e sonhos. Feliz o tempo que passou, passou. Tempo tão cheio de recordações... Bota saudade nisso.

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

(Lágrimas de Portugal? Cá entre nós, isso não parece lavrado numa tabacaria da zona portuária, por um bardo alambicado que queria se passar por outra pessoa? E pessoa cujo estro iria deixar a posteridade a babar nas gravatas?).

Mas sim, assim me vêem, por séculos, seculorum, amém. Uma enlutada viúva à beira do cais, a salgar o mar de fados, boleros e guarânias, sambas-canções, toadas, valsas, xotes, maracatus e baiões, e a acenar para o navio que lá vai à linha do horizonte, já a adentrar a fronteira da nostalgia. E, enquanto o mundo gira e a lusitana roda, Portugal volta a cantar um dos maiores sucessos de sua música ligeira: Ó tempo, volta pra trás. Quem anda em busca do tempo perdido está sentindo o que? Sodade, mô bem, sodade.

Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Fernando Pessoa

Do heróico tempo ficou-se a ver navios. E com olhar esfíngico e fatal. E a fitar o futuro do passado, vendo entre a cerração um vulto baço, que torna. E de quem seria esse saudoso vulto cujo retorno se esperou, dia após dia, ano após ano, século após século? De quem poderia ser se não de O Desejado, o rei morto no campo de batalha em Alcácer-Quibir, no dia 4 de agosto de 1578, seis anos depois da publicação de Os Lusíadas?! Este, sim, salgou o mar com o mais transatlântico saudosismo legado ao mundo que o português criou, ao passar além da dor.

Eis-me aí: passar além da dor. Agora, sim, dá saudade da pessoa que escreveu isto, e não aqueles bafios marinhos lacrimosos e filosofantes, tudo vale a pena se a alma não é pequena, valei-me minha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro.

Haverá santa que me salve da poesia barata, a que deveras afaga e consola, e da qual nem aquela venerável pessoa ficou imune? Mas vamos combinar: uma coisa é o saudosismo individual, para consumo privado, sem perturbações da ordem pública; outra é o coletivo, que vem em cruzadas assustadoras em busca do futuro do passado, heil! Ideologicamente, porém, não favoreço apenas as margens direitas do mundo. Estou em todos os lados, todas as torcidas, correntes de pensamento, credos etc., onde quer que haja um coração que a seu modo sente saudade de tempos mais felizes – eis aí porque atualmente estou arrebentando nas bolsas dos sentimentos, nas quais a minha cotação atinge índices nunca dantes imaginados.

Recentemente encontrei num romance brasileiro um personagem a dizer para o retrato oval do seu finado avô – um fervoroso fiel à igreja católica, apostólica, romana -, que só sentia saudade de duas coisas: o tempo dos boleros e o tempo dos comunistas, embora não soubesse exatamente por que; talvez houvesse mais sonhos naquele tempo, ele acabou por concluir, ao final de seu solilóquio. Pode-se deduzir que uma saudade como essa é conseqüência dos estilhaços projetados pela queda do Muro de Berlim, acontecida em anos recentes do passado. Mas veja: um mapa mundi que não inclua a Utopia não é digno de consulta. Quem escreveu isso foi Oscar Wilde. E ele morreu no ano de 1900. Eu vim de longe e para longe vou, porque o ser humano está sempre sentindo falta de alguma coisa que acha que já teve melhor.

O teu perfume predileto exala
No piano saudoso, à tua espera.
Castro Alves

Presumivelmente cheguei ao Brasil acompanhando o movimento utópico dos barcos. Aqui me espraiei. Tanto mar, tanto chão, quanta selva. Então me desdobrei em duplo sentimento: oceânico e telúrico. Juntando os dois em um, dá a solidão de um país grande. No ano de 1836 tive a subida honra de ser homenageada em um livro que entraria para a história literária como o marco inicial do Romantismo brasileiro. Título: Suspiros poéticos e saudades. Chamemos isso de um desconvite à leitura. Autor: Gonçalves de Magalhães. Era o precursor de uma corrente que cantava o desgosto da vida, a infância, o amor impossível, a melancolia, a tristeza, ufa! O inefável poeta veio a se superar em outro volume, intitulado Cantos fúnebres.

Passos mais adiante, eu viria a me sentir muito mais bem tratada (ou retratada) nas mãos do maranhense Gonçalves Dias, que se consagrou como o primeiro grande poeta romântico do Brasil, e que sentia orgulho de ter em seu sangue as três raças formadoras do povo brasileiro, por ser filho de um comerciante português com uma mestiça de índios e negros. Pelo menos dois de seus poemas puxam a brasa para a minha sardinha: Ainda uma vez, adeus e Canção do exílio, este escrito quando ele cursava direito na Universidade de Coimbra e morria de saudades do Brasil: Minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá, as aves que aqui gorjeiam, não gorjeiam como lá. Com essa estrofe fica a sugestão de mote para o seguinte capítulo: Do quanto a saudade esteve, está e sempre estará no coração dos exilados. Mestrandos e doutorandos, mãos às teses.

Sim, sim, também tive alguma influência na lírica do pop star do Romantismo made in Brazil, e sua mais bela cabeleira, o baiano Castro Alves, que, embora tivesse colocado a sua pena a serviço de um mundo mais justo, comprometida com a construção de uma nova ordem social, e com a causa republicana e abolicionista, não deixou de ser também um flamejante poeta do amor e da melancolia. Na sua obra há pelo menos uns sete poemas com um Adeus no título. Em Horas de saudade, escreveu: No piano saudoso, à tua espera/ Dormem sono de morte as harmonias/ E a valsa entreaberta mostra a frase/ A doce frase qu’inda há pouco lias. Castro Alves e Gonçalves Dias foram os românticos brasileiros que deixaram saudades.

No Brasil se diz: “Triste é não ter de que sentir saudade”. E mais: “Saudade não tem idade”. Aqui me mimam, fazem-me cafunés, carregam-me nos colos, ora como vó coruja, ora como mãe gentil, ou mana do peito, ou filha querida, amada amante. E até me puseram no andor das 100 palavras para melhor conhecer o Brasil, espécie de breve dicionário afetivo japonês-português, publicado em 2008 dentro das comemorações do centenário da imigração japonesa. Não deu para entender nos caracteres nipônicos que palavra corresponde à saudade, mas o certo é que ganhei um verbete amoroso, assinado por Paulo Nathanael Pereira de Souza, um educador paulista já premiado pela Academia Brasileira de Letras. Arigatô.

Aqui tenho data: 30 de janeiro. É o Dia Nacional da Saudade. Por que 30 de janeiro? Naveguei (nada a ver com uma volta às minhas origens, pois, pois) na Internet e não encontrei nenhuma pista. Escolheram uma data e pronto, estamos conversados. Homenagem é igual a cavalo dado: não se olha os dentes. Além do mais, em vez de continuar a pesquisa em outras vias, liguei-me catatonicamente a um programa dedicado ao assunto, na televisão. Um repórter saiu às ruas para saber de que as pessoas mais sentem saudades. Um nordestino que mora no Rio disse que de sua terra natal. Um carioca mostrou-se saudoso do tempo em que sua cidade vivia em paz, sem a violência atual. Outros, de um passado mais glorioso no futebol brasileiro. La nave vá. Ontem os heróis eram os dos mares. Hoje, os dos gramados.

Por fim, mas não por último, registre-se que há brasileiros que passam por mim fingindo que não me conhecem. Para estes, saudade e melancolia são sentimentos retrógrados, reacionários, bregas. Múmias paralisantes. Melhor devolvê-las a Portugal - de onde nunca deveriam ter saído -, aos cuidados da alma imortal de Fernando Pessoa, aquele que em vida carregou nos dedos três anéis irreversíveis: a tristeza, a desgraça, a solidão.

Chega de saudade, decretou a dupla Vinícius de Moraes-Tom Jobim, ao compor a música tida e havida como o marco da Bossa Nova. Mas olha que coisa mais linda, mais cheia de graça: saudades do tempo de Tom e Vinicius. Cordiais saudações.

*Do livro Dicionário amoroso da língua portuguesa. Organização: Marcelo Moutinho e Jorge Reis-Sá/ Editora Casa da Palavra, Rio de Janeiro, 2009.

Antônio Torres